"O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais." (Bertolt Brecht, dramaturgo alemão). Nunca estas palavras foram tão apropriadas.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Crise na direita festiva: Merval revela que já brincou de gato mia

 Solidário, Silvio Santos lançou uma edição do Namoro na TV especial para jovens liberais discípulos de Louis Phillipe de Itararé

MANHATTAN CONNECTION - Uma informação publicada no penúltimo parágrafo de uma coluna de Merval Pereira causou estupor na direita festiva. Após passar uma suculenta receita de miojo à moda da casa aos leitores, o jornalista relembrou: "Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. Que amor, que sonhos, que flores, naquelas tardes fagueiras, à sombra das bananeiras, onde brincávamos de gato mia", escreveu. O imortal, no entanto, não deixou claro se aproveitava o escurinho para gatunar mancebas. "Malandro é o gato que já nasce de bigode", arrematou, enigmático.

Tratado como traidor da causa liberal até que os fatos sejam apurados, Merval ameaçou uma represália: "Consegui um dossiê com fotos de Constantino brincando de salada mista, aos 22 anos, em uma festa americana", ameaçou. Rápido no gatilho, o blogueiro liberal reagiu: "Deu pêra", tuitou, em negrito. Incansável, Merval prosseguiu: "Correm boatos de que Dr. Romualdo Azeredo tenha brincado de médico com a vizinha do 1005", disparou.

Preocupado em não emitir provas que possam depôr contra sua reputação, Louis Phillipe de Itararé alterou seu status no Facebook para "Em um relacionamento sério com Adam Smith". "Não vai ter Cópula", postou logo, de cachimbo.

No final da tarde, Lobão lançou uma música-protesto contra toda essa caretice idiotizante: "Moreno, alto, bonito e liberal/ Talvez eu seja a solução dos seus problemas/ Realizo seus sonhos individuais", cantou, cheio de raiva pra dar. 

Publicado no The i-Piauí Herald.

Historiador revela que Don Juan roubava frases de Marx para pegar mulher

Desodorante Axe lança a fragrância "luta de classes"

VENEZA - Um manuscrito encontrado pelo jovem historiador liberal Laurentino Waak jogou nova luz sobre as estratégias sedutoras de Don Juan. "Ao contrário do que dizem os professores comunistas de História, que expulsaram a libido liberal das universidades e castraram a inteligência da juventude tucana, Don Juan viveu na Cracóvia, no início do século XX. Diariamente, o conquistador citava trechos de O Capital e do Manifesto Comunista para pegar mulher", revelou Waak.

Segundo Laurentino, o comunismo, na verdade, foi inventado por Calígula. "Nas décadas seguintes, jovens liberais eunucos sofriam constrangimentos nos haréns montados por sultões fundadores do PT. Os jovens liberais, descendentes do povo de Onã, são os que mais sofreram privações ao longo da História", prosseguiu.

A estratégia de citar trechos do Manifesto Comunista para pegar geral, segundo Waak, também explica o sucesso de Wando, Hugh Hefner e Brad Pitt. "Tenho provas concretas de que Mr. Catra cantou cinco periguetes com o trecho 'A sociedade moderna burguesa, surgida das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Apenas estabeleceu novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das velhas'", em forma de funk-denúncia.

Animadinho com o assunto, o filósofo Louis Phillipe de Itararé elencou, em sua coluna, as cantadas mais usadas por pedreiros gregos: "Deixa eu conhecer o fetiche da sua mercadoria", "Ah, essa mais-valia lá em casa" e "Princesa, dou muito valor de uso a essa mercadoria" foram as mais recorrentes.

Até o fechamento desta edição, Itararé não havia pegado ninguém.

Publicado no The i-Piauí Herald.

terça-feira, 22 de abril de 2014

A força da simplicidade, por Eduardo Jorge

Um movimento revolucionário fermenta na vida de milhares de pessoas em vários países. Ele é discreto, pacifista, construtivo, agregador e vem para ser um dos principais motores de implementação do desenvolvimento sustentável.

Vem para reformar profundamente as formas de viver, conviver, produzir, consumir, de se relacionar com os limites da natureza, com as outras espécies de seres vivos. Vem para revolucionar o capitalismo e o socialismo. Seu nome é simplicidade voluntária.


Suas raízes mais longínquas podem ser procuradas nas conversas de Jesus Cristo ou Buda com seus seguidores há mais de 2.000 anos no Oriente Médio ou subcontinente indiano. A força de sua atração transformadora mudou os impérios da Antiguidade.

Mais recentemente, quando do ano 1000 da era cristã, são Francisco de Assis lançou novamente, numa vertente ultrarradical, um movimento para reformar o império religioso, opulento e obeso que se dizia herdeiro de Cristo em Roma.

Lutero na Alemanha, os Quaker na Inglaterra e Inácio de Loyola do lado da Contrarreforma de certa forma retomaram a crítica esquecida pelos poderosos da época. Os papas João 23 e Francisco vêm dessa linhagem. Mas foi com Gandhi na Índia que podemos dizer que a simplicidade voluntária atingiu sua formulação mundana e atual.

Ela é uma espécie de síntese de todas as reformas e mudanças culturais que ele propunha como alternativa de liberdade e de vida equilibrada para o grande país asiático, que ao se libertar do domínio inglês marcou o fim do maior império colonial da história.

A fórmula de Gandhi tem cada vez mais trânsito em diferentes culturas. Para nós, do Ocidente, a facilidade de entendê-la e senti-la vem da influência que ideias de Jesus, Tolstoy e Henry Thoreau tiveram sobre a formação do pensamento gandhiano.

A simplicidade voluntária não é opção pela pobreza. É opção pelo essencial, pelo que é necessário para nossa vida e para a vida da comunidade. Não é uma visão totalitária, pois o essencial e o necessário são sempre diferentes em cada um de nós, mas é uma crítica tenaz, permanente, contra o consumismo moderno, contra a opressão da extrema riqueza e da extrema pobreza que permitem que exista um país como os Estados Unidos da América ao mesmo tempo em que existe uma Etiópia. E que permite que existam, em cada país, diferenças tão grandes quanto essas de Los Angeles e Adis Abeba.

Ela também não é uma utopia regressiva, hostil à inovação e ao desenvolvimento científico e tecnológico. Apenas pretende dar um sentido ético a esse desenvolvimento.

As propostas da ONU chamadas de desenvolvimento sustentável e cultura de paz têm na simplicidade voluntária a sua mais acabada fusão. Elas querem redimensionar todas as políticas públicas atuais, da educação à mobilidade, da segurança pública à política habitacional, da política energética à agricultura.

O Partido Verde do Brasil, neste ano tão importante de escolhas sociais e políticas, deseja ter a oportunidade de conversar com os brasileiros sobre isso. O país, pela diversidade de seu povo e por sua natureza abençoada, pode e deve ser uma liderança nesse novo internacionalismo que reconhece na Terra uma pátria comum da humanidade e de todos os outros seres vivos que dividem conosco o planeta azul.

Eduardo Jorge, 64, médico sanitarista, é pré-candidato à Presidência da República pelo PV (Partido Verde). Foi deputado federal e secretário da Saúde e do Verde e do Meio Ambiente na cidade de São Paulo.

Publicado na Folha.

Agora, por Elton Simões


Foram fortemente exagerados os rumores a respeito da iminente chegada do país do futuro ao primeiro mundo. Aqui e ali ainda sobrevivem alguns pálidos, erráticos e por vezes furiosos resmungos que denunciam os vestígios da existência e morte destes rumores infundados.

O país do futuro, com os pés fincados e firmemente atados ao presente, e os olhos irremediavelmente voltados ao passado, permanece impávido colosso de sonhos abandonados. A colisão inevitável entre os delírios de grandeza e a realidade bruta evidenciou a distancia entre intenção e fato.

Gerou em barulho e fúria. Produziu bastante calor e nenhuma luz. Logo acalmou. Virou incredulidade, descrença, desilusão. E, finalmente, adormeceu na forma de magoa sufocada pelo silêncio. Ausente aos olhos, mas concreta e palpável no coração. O gigante permanece deitado, talvez eternamente, em berço esplêndido, onde dorme sono profundo e inabalável.


Agora, a inflação não cede. O país não cresce. O transito não anda. O trem não tem. A energia não vem. A água não chega. A festa acabou. A luz apagou. O povo sumiu. A noite esfriou. Não veio a utopia. Tudo acabou. Tudo fugiu. Tudo mofou. Já não dá para esconder. Já não dá para sorrir. Fugir já não pode.

E com o olhar cada dia mais longe, todos ficam a aguardar, a chegada em data incerta e desconhecida, do futuro glorioso. Enquanto o amanha não chega, resta o hoje. O agora. E é neste agora que chega a conta dos desatinos passados.

Triste. Como toda ilusão que acaba.


Elton Simões mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). Publica blog na revista Meio & Mensagem. E-mail: esimoes@uvic.ca

Publicado no Blog do Noblat.

Pondé anuncia celibato

Cauã Reymond lê diariamente o Manifesto Comunista e por isso faz sucesso com as mulheres

MOSTEIRO OLAVO DE CARVALHO - Após escancarar suas dificuldades amorosas na Folha de S. Paulo, o jovem liberal Luiz Felipe Pondé enclausurou-se. "Cansei de correr atrás da mulherada sem lograr êxito. Cansei de filosofar em vão sobre questões de alta relevância. As mina é tudo analfabeta. Restou-me o sacerdócio do celibato", declarou, enquanto colocava fumo persa em seu cachimbo fálico.

A atitude foi seguida por outros jovens liberais de fina educação. "A coisa tá feia. Nenhuma cabocla quer largar o tanque para conhecer um jovem liberal sensual e de barriga tanquinho", conformou-se Rodrigo Constantino. "Achei que meu panamá faria sucesso com as periguetes", lamentou Reynaldo y Asseviedo.

Cabisbaixo, o trio resolveu dividir o mesmo quarto e bater altos papos-cabeça. Após um final de semana nietzscheano e dionisíaco, o jovem Pondé se libertou: "A misoginia é a tendência da próxima estação", filosofou.

Publicado no The i-Piauí Herald.

domingo, 20 de abril de 2014

Gabo, por Amarildo


Obrigado.

O Holocausto Português, por Érico Mello

Site para quem sente falta de vida inteligente e de alimento intelectual. Endereço: http://livreopiniao.com/

No dia 19 de abril de 1506, há 508 anos, aconteceu o Massacre de Lisboa, também conhecido como Pogrom de Lisboa ou Matança da Páscoa de 1506. Neste dia, uma multidão perseguiu, violou, torturou e matou centenas de judeus, acusados de serem a causa de uma seca, fome e peste que então assolavam o país. O fato aconteceu antes do início da Inquisição e nove anos depois da conversão forçada dos judeus em Portugal, em 1497, durante o reinado de D. Manuel I.


O Massacre

Expulsos da Espanha pelos reis católicos em 1492, cerca de 93 mil judeus refugiaram-se em Portugal. D. Manuel I, nestes anos de “acolhida portuguesa” havia se mostrado mais tolerante com a comunidade judaica, mas, sob a pressão da Espanha, e também da Igreja Católica de Portugal, a partir de 1497, os judeus foram forçados a converter-se para não serem mais humilhados e mortos em praças públicas.

Segundo Yosef Kaplan (A Diáspora Judaico-Portuguesa: as Tribulações de um Exílio) e Jorge Martins (Portugal e os Judeus — Volume I, Dos primórdios da nacionalidade à Legislação Pombalina), o massacre dos judeus teve início no Convento de São Domingos de Lisboa, num domingo, quando os fiéis rezavam pelo fim da seca e da peste que haviam levado Portugal aos frangalhos (exceto, é claro, a corte e o clero portugueses). Foi no convento que surgiu o boato de que um fiel jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenômeno que, para os católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias – um milagre. Um fiel, que também participava da missa, tentou explicar que o tal milagre poderia ser apenas o reflexo da luz, mas foi calado pela multidão, que o espancou até a morte.

O sinal milagroso foi interpretado pela multidão como um aviso e isto bastou para que os judeus da cidade, que anteriormente já eram vistos com desconfiança, tornaram-se o bode expiatório. Foram três dias de massacre que se sucederam, incitados por frades dominicanos que prometiam absolvição dos pecados dos últimos 100 dias para quem matasse os “hereges”. Com o aval da Igreja, um “exército purificador” de mais de quinhentas pessoas (incluindo muitos marinheiros da Holanda e da então Zelândia) se uniu para exterminar os judeus que viviam no país.


A corte portuguesa estava instalada em Abrantes quando o massacre começou. D. Manuel I foi avisado e chegou a enviar homens para tentar pôr fim ao banho de sangue. Entretanto, mesmo algumas autoridades que foram enviadas se viram obrigadas a fugir.


Como consequência, homens, mulheres e crianças foram torturados, massacrados e queimados em fogueiras improvisadas. Os judeus foram acusados, entre outros “males”, de deicídio e de serem a causa da profunda seca e da peste que assolava o país. A matança durou três, na Semana Santa de 1506, e só terminou quando foi morto um cristão-novo (confundido com um judeu) e que era escudeiro do rei, fazendo com que as tropas reais chegassem em forte número para restaurar a ordem.

O rei penalizou os envolvidos, confiscando seus bens e os dominicanos instigadores foram condenados à morte por enforcamento. Há também indícios de que o referido Convento de São Domingos teria sido fechado durante oito anos e sabe-se que os representantes da cidade de Lisboa foram expulsos do Conselho da Coroa (equivalente ao atual Conselho de Estado), onde tinham lugar desde 1385.

Após o massacre, houve um clima crescente anti-semitismo em Portugal e se estabeleceu o Tribunal do Santo Ofício (que entrou em funcionamento em 1540, perdurando até 1821), obrigando às famílias judaicas sobreviventes a fugirem, quando não eram expulsas, do país. Seus principais destinos de refúgio eram os Países Baixos, França, Turquia e Brasil.


Mesmo expulsos da Península Ibérica, os judeus só podiam deixar Portugal mediante o pagamento de um “resgate” à Coroa. No processo de emigração, os judeus abandonavam suas propriedades ou as vendiam por preços irrisórios e viajavam apenas com a bagagem que conseguissem carregar.

O esquecimento na História



O Massacre acabou sendo apagado da memória coletiva: alguns livros de História fazem, no máximo, alguma referência corriqueira. No entanto, nomes como Damião de Góis, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Garcia de Resende,Salomon Ibn Verga e Samuel Usque fizeram registros do fato ou retomaram o acontecido, tornando possível um consulta às fontes históricas do massacre.

Um dos mais completos é o de Damião de Góis, no “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”:

No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um Cristão-novo (julgou ver, somente), uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.

Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os Cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: “Heresia! Heresia!” Isto impressionou grande multidão de gente estrangeira, marinheiros de naus vindos da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens. Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os Cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira (do Tejo) e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas.

A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens (de Lisboa) da qualidade (social)dos (marinheiros estrangeiros), os quais, na Segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem Cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e (as próprias) crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam. E chegou-se a tal dissolução que (até) das (próprias) igrejas arrancavam homens, mulheres, moços e moças inocentes, despegando-os dos Sacrários, e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de outros santos, a que o medo da morte os havia abraçado, e dali os arrancavam, matando-os e queimando-os fanaticamente sem temor de Deus.

Nesta (Segunda-feira), pereceram mais de mil almas, sem que, na cidade, alguém ousasse resistir, pois havia nela pouca gente visto que por causa da peste, estavam fora os mais honrados. E se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a recolher-se para lhes não acontecer o mesmo que aos Cristãos-novos.

Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio, alguns que, pelo ódio e malquerença a Cristãos, para se vingarem deles, davam a entender aos estrangeiros que eram Cristãos-novos, e nas ruas ou em suas (próprias) casas os iam assaltar e os maltratavam, sem que se pudesse pôr cobro a semelhante desventura.

Na Terça-feira, estes danados homens prosseguiram em sua maldade, mas não tanto como nos dias anteriores; já não achavam quem matar, pois todos os Cristãos-novos, escapados desta fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piedosas, (contudo) sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas criaturas.


Na tarde daquele dia, acudiram à cidade o Regedor Aires da Silva e o Governador Dom Álvaro de Castro, com a gente que puderam juntar, mas (tudo) já estava quase acabado. Deram a notícia a el-Rei, na vila de Avis, (o qual) logo enviou o Prior do Crato e Dom Diogo Lopo, Barão de Alvito, com poderes especiais para castigarem os culpados. Muitos deles foram presos e enforcados por justiça, principalmente os portugueses, porque os estrangeiros, com os roubos e despojo, acolheram-se às suas naus e seguiram nelas cada qual o seu destino. (Quanto) aos dois frades, que andaram com o Crucifixo pela cidade, tiraram-lhes as ordens e, por sentença, foram queimados.

Publicado no Livre Opinião.

sábado, 19 de abril de 2014

Avestruz suicida, por Cristovam Buarque

Vem desde os gregos a ideia de que o homem é um animal político. Os outros animais se movem por instinto, os homens pela conversa. Cada vez que três pessoas tentam decidir algo fazem política. Mas, olhando para os brasileiros de hoje, pode-se dizer que o político é um animal parecido ao avestruz. A exemplo desta ave há uma preferência por esconder a cabeça para não ver os problemas ao redor.

Nesse momento, o animal político brasileiro debate sobre fazer ou não uma CPI para apurar os desmandos na Petrobras. Os que não querem a CPI escondem as cabeças para não descobrir o que está acontecendo; os que desejam descobrir o que está ocorrendo na Petrobrás, não percebem o problema maior da crise energética que enfrentamos.

Diante da grave crise energética que se abaterá sobre o mundo inteiro, nas próximas décadas, os políticos se comportam como avestruz. Não despertam para os limites da disponibilidade de petróleo que se esgotará, esgotando também a Petrobras, qualquer que seja a competência e honestidade de sua direção depois de uma CPI séria. Nem despertam para o enorme potencial que temos para gerar energia a partir de novas fontes, tal como a energia solar, e ainda a relegada e criativa experiência do etanol.

O animal político brasileiro se comporta como um avestruz para não ver a gravidade da violência espalhada, profunda e destruidora sobre todo o tecido social brasileiro. Não percebe que vivemos um tempo de guerra, com mais de 50 mil mortos por ano, vítimas de assassinatos. Com a cabeça escondida, deixamos de ver a violência e o medo generalizado nas ruas de nossas cidades.

Escondemos a cabeça para não identificar e entender as causas da guerrilha de grupos organizados por meio de celulares e de computadores para queimar ônibus, impedir o trânsito, paralisar serviços. E tal como avestruz, decidimos enfrentar parte dessa guerra espalhada envolvendo localmente as Forças Armadas; não ver os riscos de soldados serem mortos por traficantes dentro do território nacional ou de soldados matarem acidentalmente crianças no meio de tiroteio. O que em guerra se chama de efeito colateral, dentro do território nacional será chamado de assassinato.

Não vemos os riscos de nossas cidades degradadas, da economia baseada em produtos primários, enquanto os outros países investem em produtos de alta tecnologia.

O avestruz prefere não ver o triste futuro de um país que não cuida de suas crianças, abandonando-as e jogando-as em escolas sem aulas, sem equipamentos, sem professores e sem avaliação, onde não conseguem concluir o ensino fundamental. Só um avestruz não vê o triste futuro do Brasil retratado na cara de suas escolas de hoje.

Também é comportamento de avestruz não perceber a falta de credibilidade nos políticos, vistos como um tipo especial de avestruz que, além de esconder a cabeça, enfia as mãos no chão para trocar favores com recursos públicos.

Continuar agindo dessa forma é o comportamento de um avestruz suicida.


Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF.

Publicado no Blog do Noblat.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Neymar cai em colchão Ortobom e pede Penalty

Neymar pegou sol com filtro solar de um patrocinador

EL CORTE INGLES - Motivado com a repercussão da jogada envolvendo sua cueca, o atacante Neymar® fechou mais 33 contratos de patrocínio. "No próximo jogo, toda vez que simular uma falta, Neymar® cairá em cima de um colchão Ortobom. Se cair na área, é Penalty! E, se fizer gols, dançará o Lupo Lupo", explicou seu empresário Alberto Panasonic.

Neymar® também está instruído a pedir a bola com o dedo indicador levantado, como se estivesse demandando uma Brahma. Há também acordos com a Buddemeyer para que o craque dê um lençol por jogo e com a Lacta, que dará premiações durante a Páscoa a cada ovinho dado pelo atacante. "Se Neymar der um drible da vaca, tem que ser Friboi", garantiu seu empresário.

Desde semana passada, no entanto, Neymar® está no estaleiro. "Fechamos um acordo para que o jogador distendesse a panturrilha de maneira que o músculo assumisse a forma do símbolo da Nike", garantiu Panasonic.

Publicado no The i-Piauí Herald.

A vespa e o deus malvado (fábula contada pela natureza), por Perce Polegato

O caso da vespa icneumônida é um exemplo clássico de crueldade nas interações do reino animal e, para os que creem num criador para isso tudo, os sintomas de uma mente perversa, sádica e perigosa.

A vespa mãe usa outro inseto, muitas vezes uma lagarta, para hospedeiro de seus filhotes. Injeta seus ovos no corpo da vítima ou a paralisa com seu ferrão e põe os ovos em cima dela, às suas costas. Conforme as larvas dos filhotes vão crescendo, vão devorando a lagarta viva, porém com muito cuidado, deixando o coração e outros órgãos vitais por último, para que o hospedeiro não apodreça e não as deixe passar fome.



No século 19, o entomologista J. H. Fabre descreveu um desses casos.

“Pode-se ver o gafanhoto, comido por dentro, mover inutilmente suas antenas e estilos abdominais, abrir e fechar suas mandíbulas vazias e até mover uma pata, mas a larva está segura e devora suas entranhas impunemente. Que terrível pesadelo para o gafanhoto paralisado!”

Não precisamos de exemplos tão específicos. Uma simples teia de aranha serve como “prova do crime” de um criador cruel, já que tudo teria sido definido por seus “projetos”, por seu “design” escabroso, por sua vontade. Como extensão dessas fantasias, milhões de pessoas ainda cultivam (e veneram e louvam!) um criador que mostra seu poder assombroso por meio de tantas situações naturais, pontuando, nos livros sagrados, uma variedade de ameaças sinistras para todos nós.


Mas somos adultos e sabemos que não existe nenhum criador. Podemos pensar com clareza, sabemos que na natureza não existe justiça ou injustiça, sabemos que não há culpados, não podemos projetar, nós mesmos, deuses ou deusas cruéis só para adequar nossos mitos à realidade. Sabemos, enfim, que isso são processos naturais, que essa crueldade toda é a natureza se manifestando continuamente, à frente de nossos olhos, nossos olhos atentos, é bom lembrar, sem a miopia, sem a cegueira dos religiosos, cuja única alternativa é fingir que nada disso acontece.

Perce Polegato é membro da ATEA, como eu. Texto publicado no grupo da associação, no Facebook.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabriel García Márquez morre aos 87 anos

O escritor Gabriel García Márquez em foto tirada no dia de seu aniversário de 87 anos, em 6 de março 

RIO - O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira, aos 87 anos, na Cidade do México. Ainda não há informações sobre a causa da morte, mas o autor de "Cem anos de solidão" chegou a ser internado no dia 31 de março, apresentando vários sintomas característicos de uma pneumonia, assim como um quadro infeccioso e desidratação.

Primeiro foi atendido em casa, mas como não melhorou, os médicos optaram pela internação. Mais tarde, recebeu alta. Ao saber da movimentação de jornalistas em frente à sua casa, Gabo teria dito: “Eles estão loucos? O que fazem lá fora? Que vão trabalhar, façam algo útil”.

Relatos sobre a volta do câncer

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, afirmou na quarta-feira que o autor não tinha câncer, contrariando informações publicadas pelo mexicano "El Universal" um dia antes. Segundo o jornal, depois de superar um câncer linfático 12 anos atrás, Márquez estaria novamente debilitado pela doença, com metástase no pulmão, nos gânglios e no fígado.

Escritor sofre de ‘demência senil’ desde 2012

Dois anos atrás, em julho de 2012 , Jaime García Márquez , irmão do escritor, revelou em uma conferência realizada em Cartagena, na Colômbia, que seu irmão estava sofrendo de “demência senil”, doença que atinge quase todos os seus familiares.

A declaração foi imediatamente rejeitada pelo titular da Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, Jaime Abello, que disse que não haver diagnóstico para confirmá-la. A negativa foi reforçado por amigos e colegas do escritor .

Nos últimos anos, as aparições públicas de García Márquez diminuíram. A última foi no dia 6 de março, durante seu aniversário, quando saiu de sua casa para receber parabéns de jornalistas e alguns leitores. Estava com semblante tranquilo e bom humor.

Gabriel García Márquez com Jorge Amado.

Velório

Os restos mortais do Nobel de Literatura estão em uma funerária do sul da Cidade do México, onde o corpo será velado. Com dificuldades para passar pelo batalhão de jornalistas de plantão, o carro fúnebre partiu da casa do escritor acompanhado de três viaturas policiais e fez um breve trajeto até a funerária J. García López, localizada no bairro de San Ángel.

O falecimento do escritor aconteceu às 14h (16h de Brasília), segundo o Conselho Nacional para a Cultura e as Artes do México (Conaculta). A mulher de Gabo, Mercedes Barcha, e seus filhos, Rodrigo e Gonzalo, ainda não emitiram declarações. Vários amigos da família entraram na casa também sem falar com a imprensa, entre eles o escritor e fotógrafo colombiano Guillermo Angulo.

A assistente-executiva Mónica Hérnandez, de 28 anos, foi a primeira de uma imensa legião de admiradores de García Márquez a deixar flores - um ramo de margaridas - na frente da casa. "É um dos meus autores favoritos. Vim demonstrar meu respeito", afirmou.


Novas instituições para o desenvolvimento, por Flávio Dino

Por que algumas nações são ricas e outras pobres? No bestseller de economia – Por que as nações fracassam –, Daron Acemoglu e James Robinson constroem uma teoria relevante para responder à questão e demonstram, após 15 anos de pesquisa, que são as instituições políticas e econômicas que estão por trás do êxito ou do insucesso dos povos.

Na base desse raciocínio, o desenvolvimento só será virtuoso se tais instituições deixarem de ser parasitárias, e puderem resistir às tentativas das elites de reforçar seu próprio poder, em proveito apenas de uma pequena minoria. Acemoglu e Robinson poderiam ter usado o Maranhão como exemplo para suas teses.

O Estado possui enormes disparidades, fruto da má distribuição de riquezas, do acesso desigual aos serviços públicos e aos bens de uso comum, como os recursos naturais. E vive o desafio de ser potencialmente rico e ter os piores indicadores sociais do Brasil.

Não é preciso perder tempo com explicações absurdas que atribuem à cultura ou mesmo à geografia as razões de tal atraso social. O Maranhão é pobre porque seus cidadãos são ainda hoje privados de instituições políticas capazes de gerar incentivos básicos para garantir o desenvolvimento.


Enquanto o Brasil consolidou o seu sistema democrático de governo, capaz de garantir a alternância de poder e resultados econômicos positivos, no Maranhão o poder político continua concentrado nas mãos de uma elite que não tem interesse em assegurar direitos básicos da população e não investe na prestação de serviços públicos capazes de fomentar o progresso do Estado: 39,5% da população vive com menos de R$ 140,00 por mês, o pior resultado do país nesse indicador.

Serviços básicos, como o acesso regular à água tratada, não estão acessíveis para mais de 3 milhões de maranhenses e apenas 7,6% dos domicílios do Estado têm ligação com a rede geral de esgoto.

Uma das consequências diretas da falta de saneamento é a alta mortalidade infantil, quase o dobro da média nacional. E, infelizmente, poderíamos continuar indefinidamente a elencar números escandalosos, reveladores de dores e sofrimentos irreparáveis.

É possível reverter essa realidade. Temos muitas vantagens comparativas: a abundância e diversidade dos recursos naturais, com destaque para a água; a localização estratégica; energia abundante etc. O aumento do comércio mundial pode ser fator real para o desenvolvimento do Estado. Com uma localização privilegiada, o Maranhão está mais próximo dos mercados norte-americano e europeu e, pelo acesso através do canal do Panamá, das importantes economias asiáticas.

Precisamos implantar um novo modelo de desenvolvimento, que olhe inclusive para a formação de um mercado de consumo de massas – por intermédio de atividades como a agricultura, a pecuária, a pesca e a aqüicultura. A estruturação desse mercado interno irá gerar oportunidades mais sólidas de negócios na indústria, no comércio e nos serviços.

Além disso, é preciso criar uma espécie de “rede de inteligência do bem”, rompendo barreiras que hoje limitam o desenvolvimento dos setores mais dinâmicos da economia, que dependem fortemente da inovação, da tecnologia e da capacidade criativa.

Entre outros setores, o turismo deve ser dirigido de forma estratégica e rentável, pois se trata de uma cadeia complexa e de uso intensivo de recursos humanos, isto é, tem aptidão de gerar muitos empregos. O patrimônio cultural do Estado é diferenciado, abrangendo edifícios, artes, comidas, usos e costumes.

O Maranhão tem todas as condições de ter uma economia competitiva, mas requer um governo capaz de conciliar o crescimento com a inclusão econômica e social dos setores mais pobres da população.

O primeiro passo, como sublinhado na obra Por que as nações fracassam, é a transformação das instituições políticas, garantindo o fim do longo domínio de uma elite parasitária cujos únicos interesses são: extrair renda de forma não produtiva e a sustentação do seu próprio poder político.

Há uma janela de oportunidades para mudar esse estado de coisas, atraindo o setor empresarial e as organizações da sociedade civil para participar do esforço de erradicação da pobreza no Maranhão. É hora de conquistarmos instituições do século 21.


Flávio Dino, advogado e professor de Direito Ambiental na Universidade Federal do Maranhão. Foi juiz federal, deputado federal e presidente da EMBRATUR.

Publicado no Blog do Noblat.

Leitura, Luis Fernando Veríssimo

Os necrológios do recém-falecido historiador francês Jacques Le Goff destacaram que ele mudou a nossa maneira de ver a Idade Média. Medievalista emérito, Le Goff descobriu no período muito mais significados do que se imaginava e destruiu alguns clichês sacramentados sobre a época.

A Idade Média não teria sido apenas uma ponte entre o miasma sulfúrico da Idade das Trevas e a Renascença, mas uma era de transformações importantes, assim na Terra como no Céu.

É do Le Goff a tese de que o purgatório foi inventado para que quem praticasse a usura, que era pecado, não fosse direto para o Inferno, mas tivesse a oportunidade de se regenerar no caminho e escapar da punição, o que representou um grande impulso para o nascente sistema bancário. Assim o capitalismo, que mudaria o mundo, começou mudando a cosmogonia cristã.

O que a gente estranha nessas reavaliações do passado é que a História se preste a tantas releituras. Imagina-se que o acontecido está acontecido e que seja impossível reinterpretar o que já se congelou como fato histórico.

Jacques Le Goff

Na verdade, tudo é interpretação. O que acontece com o fato histórico é o mesmo que acontece com a lei, que não é uma para todos, mas para cada um de acordo com a sua leitura. Toda vez que, por exemplo, no Supremo há uma votação fragmentada, uma maioria derrotando uma minoria, isto significa que uma leitura da lei subjugou outra leitura.

Quando a questão é de constitucionalidade, a estranheza é maior: como pode uma interpretação da Constituição ser diferente de outra se a Constituição é a mesma?

Há dias o ministro Joaquim Barbosa deu o único voto favorável ao julgamento do Azeredo e do mensalão tucano no Supremo — todos os outros ministros votaram contra. Azeredo será julgado pela Justiça do seu estado, se o crime pelo qual é acusado não prescrever antes.

O voto do Barbosa foi exageradamente subjetivo, para evitar que acusassem o Supremo — como a Igreja mudando a configuração do além — de adotar dois jogos de pesos e medidas, um para o PT e outro para os outros, ou sua leitura da lei foi a única correta?

O passado, já disse alguém, é uma terra estranha, cheia de surpresas para quem a visita. Reinterpretá-la é sempre uma aventura intelectual, como foi para Le Goff. A variedade de leituras das leis também pode ser positiva, quando não é assustadora. Todo o sistema de instâncias do Judiciário existe para que o subjetivismo não domine e deforme os julgamentos. Mas que a gente estranha, estranha.

PAPO VOVÔ

Lucinda, nossa neta de 6 anos, pediu para eu me inspirar — a palavra é dela — e inventar uma história para a qual ela já tem o título: “A batata assassina.” Estou aceitando sugestões.


Luis Fernando Veríssimo é escritor. Publicado no Blog do Noblat.


Renato Aragão é o novo presidente da Petrobras

Aragão elogiou sua antecessora: "Gracinha é Biiita", disse, balançando o pé direito

PROJAC - Irritada com as recentes desventuras da Petrobras, a presidenta Dilma Rousseff resolveu trocar o comando da companhia. "Se é para fazer trapalhada, precisamos de profissionais, meus filhos e minhas filhas", discursou. Em seguida, apresentou Renato Aragão como novo presidente da empresa.

Em sua primeira medida, Aragão entrou com um extintor de incêndio na sala onde Nestor Cerveró dava depoimento sobre a compra da refinaria em Pasadena. Vestido de Maria Bethânia, dublou uma canção de Chico Buarque: "Amo tanto e de tanto amar/ Acho que ela é bonita/ Tem um olho sempre a boiar/ E outro que agita".

Mais tranquilo, o novo presidente da Petrobras convocou uma coletiva de imprensa para anunciar suas medidas inciais. "É preciso muita cacetração para dirigir as reuniões de cãoselho. Para isso, chamei meu colega Dedé", explicou, enquanto jogava um balde de água fria nos jornalistas. No final, perguntou: "Dilma, no céu tem pão?".

Depois do anúncio, as ações da Petrobras subiram 55%.

Publicado no The i-Piauí Herald.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Descobri que falo 'brasileiro'. Por Juliana Doretto

Dizem as boas línguas que brasileiros e portugueses falamos a mesma língua. Ah, caro leitor, essa frase está tão longe da realidade quanto o Brasil está distante de Portugal.

Sim, conversamos e nos entendemos; escrevemos e nos entendemos – uns 90%, é verdade, mas há compreensão. Só que não se trata da mesma linguagem. Quer ver? Aqui, em Portugal, eles dizem que falamos “brasileiro”. No Brasil, dizemos que falamos português e que os lusos manejam o “português de Portugal”. Entre essas duas línguas há um pote de gostosuras -- mal-entendidos, usos curiosos, duplos significados --, tão deliciosas quanto a moqueca nossa e o bacalhau deles.

Outro dia, compro uma revista, abro, e está lá, em letras garrafais: “Roupas para quem tem rabo pequeno”. Na página seguinte, vêm os modelitos para quem tem “rabo grande”. E, na TV, passa toda hora a propaganda da fralda que deixa o “rabinho do bebê” sequinho... Uma amiga minha, outro dia, estava com o celular no silencioso, no bolso, quando diz: “Ai, estou com o rabo a tremer!”. Aí, no Carnaval, ligo na RTP, o canal público daqui, e vem a reportagem: “Em Cabanas de Viriato, reina a dança dos cus”. Com uma senhora de 70 anos “a falar”: “Já, já dancei... já bati bem com o cu”. É cada susto que eu levo...

O português de lá é frequentemente uma surpresa. 'Derrocada' parece bem mais dramático do que deslizamento ou desabamento, não?  (Foto: Juliana Doretto)

Essa minha amiga, aliás, é mestre em me fazer ter sobressaltos. Já me fez quase ligar para o serviço de emergência quando me contou que sua “botija” havia estourado durante a noite, e a cama estava molhada. Como saberia eu que ela falava de uma bolsa de água quente que lhe aquecia os pés no frio lisboeta? Também me contou que teve de chamar ajuda para enfrentar uma “osga”. Imaginando algo feroz e assustador, apoiei seu ato de pouca bravura, até saber que o bicho em questão era uma inofensiva lagartixa.

Descobri ainda que as pessoas aqui metem o carro na vaga, metem o livro na mala, metem em todo o lugar, e fica tudo bem. Sei agora que gosto de “mocho” (coruja); que tenho um “chapéu de chuva” (guarda-chuva); que na serra da Estrela há “nevão” (nevasca); que travesseiro é “almofada”, e almofada é almofada mesmo; que “putos” e “pitas” são algo como “miúdos” ou “miúdas”, ou garotos e garotas. Inclusivamente – muito usado por aqui –, pode-se chamar uma menina de “rapariga” sem que ela se ofenda com o termo de uso antigo.

Aprendi que não apenas existe mas é extremamente popular o termo “mais pequeno”; que “engraçado” é interessante, e quem é engraçado na verdade “tem piada”; que a plataforma do metrô é o “cais do metro”, que fresco é “gelado”; que “gelado” é sorvete e que ninguém chupa gelado por aqui, porque é feio. Come-se. Come-se um gelado de “marabunta”, por exemplo. Não pense bobagem: é de flocos.

Mas nada é tão difícil para mim quanto "o tratamento Pelé”, como o chamo. Assim como o Edson trata a si mesmo pela terceira pessoa, é extremamente comum aqui que as pessoas me chamem de “Juliana” quando estão falando diretamente comigo. É um tratamento intermediário, nem formal nem informal. “E a Juliana vai comer o quê?”, perguntaram-me. A primeira vez, é claro, olhei para trás, procurando uma Juliana. Mas havia somente eu na sala. Isso vem também por escrito. Em um e-mail enviado para mim, é comum ler a frase: “Como a Juliana me disse na última mensagem...”

Tem toda a parte dos xingamentos, palavrões e outros que tais, mas isso, por força da minha polidez, eu guardo para os meus amigos “tugas”, numa mesa de uma “tasca” qualquer. Ou um restaurante pequeno e barato. Enquanto “tomamos um copo” e para quem eu distribuo um “grande beijinho”, porque é assim que faz com aqueles por quem se tem estima. Mas, para dizer que não avisei, sugiro apenas que não comprem um broche, mas sim uma “pregadeira”. Soará muito melhor, vá por mim...

Juliana Doretto é jornalista e faz doutorado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Publicado no site da revista Época.

terça-feira, 15 de abril de 2014

"De carona é mais gostoso", diz André Vargas

Após a declaração, André Vargas foi contratado pelo Flamengo

ILHAS SEYCHELLES - Em discurso de despedida na Câmara, o deputado André Vargas ressaltou que não estava em impedimento quando pegou emprestado o jatinho do doleiro Alberto Yousseff. Após repetir o mantra de que provará sua inocência de cabeça erguida, Vargas provocou a oposição: "De carona é mais gostoso", soltou, de punho cerrado e braço erguido.

A frase se espalhou no governo e virou um bordão. Em depoimento sobre a compra de uma refinaria em Pasadena, no Texas, a presidenta da Petrobras, Graça Forster, salientou: "Superfaturado é mais gostoso".

Procurado em seu gabinete, Guido Mantega foi conclamado a se pronunciar sobre os ajustes no orçamento de 2013: "Maquiado é mais gostoso", declarou.

No final da tarde, a diretoria do Vasco da Gama entrou com o recurso no DIP para anular este post.

Publicado no The i-Piauí Herald.

Eles querem ser patrões, por Fernando Barros

Hoje, 12 milhões de brasileiros habitam as periferias e favelas de nossas maiores cidades. Somados, equivalem à população do que poderia ser a quinta maior unidade da federação e ultrapassam a renda comum do Paraguai e da Bolívia.

Esse Brasil das favelas e da periferia responde por R$ 63,2 bilhões no mercado de consumo. Essa turma está plugada no planeta. Todos empunham celulares de última geração e quase a totalidade deles se conecta com a internet a partir de suas casas, de seus desktops e notebooks. Conectividade, para eles, é algo orgânico.

Dedico-me a observar e estudar essa nação da nova classe media há alguns meses. É fabuloso observar as atitudes, os desejos e as aspirações que os move. São ágeis para decifrar o mundo que os cerca. Um traço relevante da tribo: cerca de 70% deles almejam ter o próprio negócio, querem ser patrões, conquistar a independência de “não trabalhar mais pros outros”, como revela o relatório “Oportunidades e desafios no novo Brasil”, pesquisa feita pelo DataPopular, de Renato Meirelles.


Quem se libertou da pobreza não quer apenas comprar. Quer também vender. Não quer seguir tendo chefes. Quer ganhar mais, ter renda própria. São “autonomistas” e isso se reflete em todo seu conjunto atitudinal. Inclui, claro, preferências eleitorais: Não sabem direito em quem vão votar, mas governam seus votos.

Entendem que chegaram até aqui principalmente graças a seus esforços. Os governos fizeram “resgates” e essa justiça social deveria ter acontecido há muito tempo. Não incluem a gratidão a quem quer que seja. Querem mais e, como disse Raul Seixas, acham que tem ainda muito a ser conquistado e não vão ficar parados. Andam sem fé nos poderes constituídos. Não têm exatamente um líder, uma referência.

Na periferia, os jovens entre 18 e 35 anos têm opiniões mais livres e as manifestam. Lidam fácil com a tecnologia, por isso lideram os lares — mesmo que sigam morando com os pais. Quase 40% desse novo Brasil tem uma mulher como chefe de família. Emancipadas, livres de preconceito, têm voz e vez.

Somadas, a classe média tradicional e essa nova classe média emergente são 54% da população. Tudo que acontecerá no Brasil nos próximos anos passará por aí. Bem-aventurados os que conseguirem dialogar com eles.

Trabalhar com marketing, seja eleitoral ou de consumo, significa, a partir de agora, debruçar-se sobre esse novo país emergido da miséria e da pobreza. Eles se sentem empoderados, sabem seus direitos e onde querem chegar. Vivem uma fase de baixa tolerância e não hesitam em manifestar protestos.

Informam-se por um mix de novas e antigas mídias. Dizer que só a web os toca é como passar a receita pela metade. São conectados e conectivos, mas ainda param em frente às TVs abertas, ouvem rádio e leem jornais. A internet é o novo meio, mas a mensagem tradicional ainda os toca.

Eles sabem formular seus pensamentos, estruturar suas atitudes de forma clara e pragmática. Pelos inúmeros relatórios qualitativos que tenho lido, suas críticas às políticas e aos políticos são consistentes. Não gostam, ou gostam, e dizem o porquê.

É hora de esculpir um modelo ideal de país que atenda às demandas dessa turma. Querem novas ideias, mais do que crédito fácil para comprar automóveis, motos, TVs de LED, smartphones e outras bugigangas.

Isso eles já têm.


Fernando Barros é publicitário e presidente da agência Propeg. Publicado no Blog do Noblat.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Robalo é o novo mascote da Copa do Mundo

A confecção do novo mascote custou R$ 56 milhões

SUÍÇA - Preocupado com a queda de popularidade da Copa do Mundo, o ministro Aldo Rebelo contratou o Ipea para realizar uma série de sondagens que vão descortinar as razões do descontentamento nacional. "Contemplamos sedes com larga tradição futebolística, como Manaus e Cuiabá, e atualizamos nossos estádios com a ajuda de fornecedores de primeira qualidade indicados pela FIFA. Criamos novos ícones culturais, como o Fuleco, a Caxirola e a Cafuza. Nem assim o nosso bom povo ficou satisfeito", lamentou Rebelo.

De acordo com as os primeiros resultados da consulta popular, 88% dos brasileiros acham que o robalo é o animal mais adequado para representar a relação entre a Copa do Mundo e o país. Na internet, uma campanha ufanista emergiu das redes sociais e foi criada a hashtag #vamosrobalo. Contratada em regime de urgência, sem licitação, a pesquisa custará 35 bilhões aos cofres públicos e terá seu resultado final divulgado em 2019.

Rebelo, no entanto, fez questão de se antecipar e prometeu atender aos anseios populares. "Infelizmente, não haverá tempo hábil para trocar o Fuleco antes da Copa. Mas, em paralelo, adotaremos o robalo como mascote oficial da III Copa Cristã sub-17 de Biritiba Mirim, que começa em dezembro", comemorou.

A escolha do novo mascote ganhou adeptos entre os jogadores e dirigentes. O goleiro Felipe, do Flamengo, apoiou a ideia. "Robalo é mais gostoso", afirmou.

domingo, 13 de abril de 2014

Quantos deuses únicos existem?, por Perce Polegato

As três religiões tradicionais do Ocidente (não as mais antigas, pois o hinduísmo é mais antigo que elas e ainda hoje tem 1,1 bilhão de adeptos!) são fundamentadas no monoteísmo, como todos estão fartos e entediados de saber.

Acontece que o deus único do judaísmo não é o pai de Jesus. E o deus único do cristianismo não foi o que orientou Maomé a disseminar os ensinamentos do Alcorão por toda a Terra. E o deus único dos islâmicos não tem nada a ver com a pregação do Evangelho.

Eu, que não sou judeu, nem cristão, nem muçulmano, se me interessasse em me converter, em qual deus único apostaria? E se eu errasse em minha decisão? Seria castigado ou, no mínimo, desvalorizado pelo verdadeiro deus, aquele que, por ignorância ou indecisão minha, não escolhi?

Que enrascada, que dilema, que medo de acabar no inferno do deus do outro, que questões profundas, difíceis, filosóficas, teológicas – e eu aqui, arrancando os cabelos, com medo de ofender um deus ou outro e...

Mas, para sorte de todos nós, os deuses não existem.

Lembro de quando eu era menino, o professor de catequese dizendo que Deus vivia em nossos corações – o deus de nossa religião, é claro, que estrategicamente chamaram de “Deus” mesmo). Mesmo assim, eu dava um jeito secreto de me aliviar um pouco. Afinal, podia ser Alá, dos islâmicos, ou Krishna, tanto faz, não importaria o deus em questão (na época, eu nem sabia esses nomes, mas sabia que havia outros deuses sim, via coisas sobre a Índia na TV). No fundo eu gostaria mais que fosse uma deusa, daquelas que eu via em estátuas gregas nos livros, mas o professor falava sempre no masculino, e quem era eu para contradizer uma coisa sagrada dessas, não e mesmo? Nosso deus era velho e macho.

Os babilônios, por exemplo, tinham seu deus único, Marduk. Os assírios, Baal. Com o comércio e a interação desses povos, um devia olhar para o outro e dizer: “Ei, espere aí! O meu é que é o deus único, não o seu.”

Eu queria entrar numa máquina do tempo, aportar na Mesopotâmia e dizer a eles: “Esqueçam isso, amigos, e façam as pazes. Venho do futuro e trago boas novas: os deuses não existem.”


Perce Polegato é membro da ATEA, como eu. Texto publicado no grupo da associação, no Facebook.

Alckmin promete economizar no xampu


Alckmin quer uma CPI para apurar a relação entre Haddad e Kamura

CANTAREIRA - Assustado com a possibilidade da falta d´água desembocar em um racionamento de votos, o governador Geraldo Alckmin pediu compreensão ao povo paulistano. "Precisamos evitar o desperdício. Prometo economizar no xampu até essa crise passar. Falei com o Serra e ele também fará parte dessa corrente de solidariedade", discursou, caminhando sobre as águas do Tietê.

Irascível e enérgico, Alckmin exigiu a criação imediata de uma CPI para apurar os gastos de água do topete de Dilma. "Imaginem a quantidade de água que não é desperdiçada diariamente para desfazer aquela argamassa de laquê", bradou, com o dedo em riste.

Inconformado com a inépcia do governo paulista, o doleiro Alberto Yousseff fechou todas as suas casas de câmbio em São Paulo. "Não consigo mais lavar dinheiro", reclamou.

Publicado no The i-Piauí Herald.