"O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nascem a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais." (Bertolt Brecht, dramaturgo alemão). Nunca estas palavras foram tão apropriadas.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

A vespa e o deus malvado (fábula contada pela natureza), por Perce Polegato

O caso da vespa icneumônida é um exemplo clássico de crueldade nas interações do reino animal e, para os que creem num criador para isso tudo, os sintomas de uma mente perversa, sádica e perigosa.

A vespa mãe usa outro inseto, muitas vezes uma lagarta, para hospedeiro de seus filhotes. Injeta seus ovos no corpo da vítima ou a paralisa com seu ferrão e põe os ovos em cima dela, às suas costas. Conforme as larvas dos filhotes vão crescendo, vão devorando a lagarta viva, porém com muito cuidado, deixando o coração e outros órgãos vitais por último, para que o hospedeiro não apodreça e não as deixe passar fome.



No século 19, o entomologista J. H. Fabre descreveu um desses casos.

“Pode-se ver o gafanhoto, comido por dentro, mover inutilmente suas antenas e estilos abdominais, abrir e fechar suas mandíbulas vazias e até mover uma pata, mas a larva está segura e devora suas entranhas impunemente. Que terrível pesadelo para o gafanhoto paralisado!”

Não precisamos de exemplos tão específicos. Uma simples teia de aranha serve como “prova do crime” de um criador cruel, já que tudo teria sido definido por seus “projetos”, por seu “design” escabroso, por sua vontade. Como extensão dessas fantasias, milhões de pessoas ainda cultivam (e veneram e louvam!) um criador que mostra seu poder assombroso por meio de tantas situações naturais, pontuando, nos livros sagrados, uma variedade de ameaças sinistras para todos nós.


Mas somos adultos e sabemos que não existe nenhum criador. Podemos pensar com clareza, sabemos que na natureza não existe justiça ou injustiça, sabemos que não há culpados, não podemos projetar, nós mesmos, deuses ou deusas cruéis só para adequar nossos mitos à realidade. Sabemos, enfim, que isso são processos naturais, que essa crueldade toda é a natureza se manifestando continuamente, à frente de nossos olhos, nossos olhos atentos, é bom lembrar, sem a miopia, sem a cegueira dos religiosos, cuja única alternativa é fingir que nada disso acontece.

Perce Polegato é membro da ATEA, como eu. Texto publicado no grupo da associação, no Facebook.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabriel García Márquez morre aos 87 anos

O escritor Gabriel García Márquez em foto tirada no dia de seu aniversário de 87 anos, em 6 de março 

RIO - O escritor colombiano Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira, aos 87 anos, na Cidade do México. Ainda não há informações sobre a causa da morte, mas o autor de "Cem anos de solidão" chegou a ser internado no dia 31 de março, apresentando vários sintomas característicos de uma pneumonia, assim como um quadro infeccioso e desidratação.

Primeiro foi atendido em casa, mas como não melhorou, os médicos optaram pela internação. Mais tarde, recebeu alta. Ao saber da movimentação de jornalistas em frente à sua casa, Gabo teria dito: “Eles estão loucos? O que fazem lá fora? Que vão trabalhar, façam algo útil”.

Relatos sobre a volta do câncer

O presidente colombiano, Juan Manuel Santos, afirmou na quarta-feira que o autor não tinha câncer, contrariando informações publicadas pelo mexicano "El Universal" um dia antes. Segundo o jornal, depois de superar um câncer linfático 12 anos atrás, Márquez estaria novamente debilitado pela doença, com metástase no pulmão, nos gânglios e no fígado.

Escritor sofre de ‘demência senil’ desde 2012

Dois anos atrás, em julho de 2012 , Jaime García Márquez , irmão do escritor, revelou em uma conferência realizada em Cartagena, na Colômbia, que seu irmão estava sofrendo de “demência senil”, doença que atinge quase todos os seus familiares.

A declaração foi imediatamente rejeitada pelo titular da Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano, Jaime Abello, que disse que não haver diagnóstico para confirmá-la. A negativa foi reforçado por amigos e colegas do escritor .

Nos últimos anos, as aparições públicas de García Márquez diminuíram. A última foi no dia 6 de março, durante seu aniversário, quando saiu de sua casa para receber parabéns de jornalistas e alguns leitores. Estava com semblante tranquilo e bom humor.

Gabriel García Márquez com Jorge Amado.

Velório

Os restos mortais do Nobel de Literatura estão em uma funerária do sul da Cidade do México, onde o corpo será velado. Com dificuldades para passar pelo batalhão de jornalistas de plantão, o carro fúnebre partiu da casa do escritor acompanhado de três viaturas policiais e fez um breve trajeto até a funerária J. García López, localizada no bairro de San Ángel.

O falecimento do escritor aconteceu às 14h (16h de Brasília), segundo o Conselho Nacional para a Cultura e as Artes do México (Conaculta). A mulher de Gabo, Mercedes Barcha, e seus filhos, Rodrigo e Gonzalo, ainda não emitiram declarações. Vários amigos da família entraram na casa também sem falar com a imprensa, entre eles o escritor e fotógrafo colombiano Guillermo Angulo.

A assistente-executiva Mónica Hérnandez, de 28 anos, foi a primeira de uma imensa legião de admiradores de García Márquez a deixar flores - um ramo de margaridas - na frente da casa. "É um dos meus autores favoritos. Vim demonstrar meu respeito", afirmou.


Novas instituições para o desenvolvimento, por Flávio Dino

Por que algumas nações são ricas e outras pobres? No bestseller de economia – Por que as nações fracassam –, Daron Acemoglu e James Robinson constroem uma teoria relevante para responder à questão e demonstram, após 15 anos de pesquisa, que são as instituições políticas e econômicas que estão por trás do êxito ou do insucesso dos povos.

Na base desse raciocínio, o desenvolvimento só será virtuoso se tais instituições deixarem de ser parasitárias, e puderem resistir às tentativas das elites de reforçar seu próprio poder, em proveito apenas de uma pequena minoria. Acemoglu e Robinson poderiam ter usado o Maranhão como exemplo para suas teses.

O Estado possui enormes disparidades, fruto da má distribuição de riquezas, do acesso desigual aos serviços públicos e aos bens de uso comum, como os recursos naturais. E vive o desafio de ser potencialmente rico e ter os piores indicadores sociais do Brasil.

Não é preciso perder tempo com explicações absurdas que atribuem à cultura ou mesmo à geografia as razões de tal atraso social. O Maranhão é pobre porque seus cidadãos são ainda hoje privados de instituições políticas capazes de gerar incentivos básicos para garantir o desenvolvimento.


Enquanto o Brasil consolidou o seu sistema democrático de governo, capaz de garantir a alternância de poder e resultados econômicos positivos, no Maranhão o poder político continua concentrado nas mãos de uma elite que não tem interesse em assegurar direitos básicos da população e não investe na prestação de serviços públicos capazes de fomentar o progresso do Estado: 39,5% da população vive com menos de R$ 140,00 por mês, o pior resultado do país nesse indicador.

Serviços básicos, como o acesso regular à água tratada, não estão acessíveis para mais de 3 milhões de maranhenses e apenas 7,6% dos domicílios do Estado têm ligação com a rede geral de esgoto.

Uma das consequências diretas da falta de saneamento é a alta mortalidade infantil, quase o dobro da média nacional. E, infelizmente, poderíamos continuar indefinidamente a elencar números escandalosos, reveladores de dores e sofrimentos irreparáveis.

É possível reverter essa realidade. Temos muitas vantagens comparativas: a abundância e diversidade dos recursos naturais, com destaque para a água; a localização estratégica; energia abundante etc. O aumento do comércio mundial pode ser fator real para o desenvolvimento do Estado. Com uma localização privilegiada, o Maranhão está mais próximo dos mercados norte-americano e europeu e, pelo acesso através do canal do Panamá, das importantes economias asiáticas.

Precisamos implantar um novo modelo de desenvolvimento, que olhe inclusive para a formação de um mercado de consumo de massas – por intermédio de atividades como a agricultura, a pecuária, a pesca e a aqüicultura. A estruturação desse mercado interno irá gerar oportunidades mais sólidas de negócios na indústria, no comércio e nos serviços.

Além disso, é preciso criar uma espécie de “rede de inteligência do bem”, rompendo barreiras que hoje limitam o desenvolvimento dos setores mais dinâmicos da economia, que dependem fortemente da inovação, da tecnologia e da capacidade criativa.

Entre outros setores, o turismo deve ser dirigido de forma estratégica e rentável, pois se trata de uma cadeia complexa e de uso intensivo de recursos humanos, isto é, tem aptidão de gerar muitos empregos. O patrimônio cultural do Estado é diferenciado, abrangendo edifícios, artes, comidas, usos e costumes.

O Maranhão tem todas as condições de ter uma economia competitiva, mas requer um governo capaz de conciliar o crescimento com a inclusão econômica e social dos setores mais pobres da população.

O primeiro passo, como sublinhado na obra Por que as nações fracassam, é a transformação das instituições políticas, garantindo o fim do longo domínio de uma elite parasitária cujos únicos interesses são: extrair renda de forma não produtiva e a sustentação do seu próprio poder político.

Há uma janela de oportunidades para mudar esse estado de coisas, atraindo o setor empresarial e as organizações da sociedade civil para participar do esforço de erradicação da pobreza no Maranhão. É hora de conquistarmos instituições do século 21.


Flávio Dino, advogado e professor de Direito Ambiental na Universidade Federal do Maranhão. Foi juiz federal, deputado federal e presidente da EMBRATUR.

Publicado no Blog do Noblat.

Leitura, Luis Fernando Veríssimo

Os necrológios do recém-falecido historiador francês Jacques Le Goff destacaram que ele mudou a nossa maneira de ver a Idade Média. Medievalista emérito, Le Goff descobriu no período muito mais significados do que se imaginava e destruiu alguns clichês sacramentados sobre a época.

A Idade Média não teria sido apenas uma ponte entre o miasma sulfúrico da Idade das Trevas e a Renascença, mas uma era de transformações importantes, assim na Terra como no Céu.

É do Le Goff a tese de que o purgatório foi inventado para que quem praticasse a usura, que era pecado, não fosse direto para o Inferno, mas tivesse a oportunidade de se regenerar no caminho e escapar da punição, o que representou um grande impulso para o nascente sistema bancário. Assim o capitalismo, que mudaria o mundo, começou mudando a cosmogonia cristã.

O que a gente estranha nessas reavaliações do passado é que a História se preste a tantas releituras. Imagina-se que o acontecido está acontecido e que seja impossível reinterpretar o que já se congelou como fato histórico.

Jacques Le Goff

Na verdade, tudo é interpretação. O que acontece com o fato histórico é o mesmo que acontece com a lei, que não é uma para todos, mas para cada um de acordo com a sua leitura. Toda vez que, por exemplo, no Supremo há uma votação fragmentada, uma maioria derrotando uma minoria, isto significa que uma leitura da lei subjugou outra leitura.

Quando a questão é de constitucionalidade, a estranheza é maior: como pode uma interpretação da Constituição ser diferente de outra se a Constituição é a mesma?

Há dias o ministro Joaquim Barbosa deu o único voto favorável ao julgamento do Azeredo e do mensalão tucano no Supremo — todos os outros ministros votaram contra. Azeredo será julgado pela Justiça do seu estado, se o crime pelo qual é acusado não prescrever antes.

O voto do Barbosa foi exageradamente subjetivo, para evitar que acusassem o Supremo — como a Igreja mudando a configuração do além — de adotar dois jogos de pesos e medidas, um para o PT e outro para os outros, ou sua leitura da lei foi a única correta?

O passado, já disse alguém, é uma terra estranha, cheia de surpresas para quem a visita. Reinterpretá-la é sempre uma aventura intelectual, como foi para Le Goff. A variedade de leituras das leis também pode ser positiva, quando não é assustadora. Todo o sistema de instâncias do Judiciário existe para que o subjetivismo não domine e deforme os julgamentos. Mas que a gente estranha, estranha.

PAPO VOVÔ

Lucinda, nossa neta de 6 anos, pediu para eu me inspirar — a palavra é dela — e inventar uma história para a qual ela já tem o título: “A batata assassina.” Estou aceitando sugestões.


Luis Fernando Veríssimo é escritor. Publicado no Blog do Noblat.


Renato Aragão é o novo presidente da Petrobras

Aragão elogiou sua antecessora: "Gracinha é Biiita", disse, balançando o pé direito

PROJAC - Irritada com as recentes desventuras da Petrobras, a presidenta Dilma Rousseff resolveu trocar o comando da companhia. "Se é para fazer trapalhada, precisamos de profissionais, meus filhos e minhas filhas", discursou. Em seguida, apresentou Renato Aragão como novo presidente da empresa.

Em sua primeira medida, Aragão entrou com um extintor de incêndio na sala onde Nestor Cerveró dava depoimento sobre a compra da refinaria em Pasadena. Vestido de Maria Bethânia, dublou uma canção de Chico Buarque: "Amo tanto e de tanto amar/ Acho que ela é bonita/ Tem um olho sempre a boiar/ E outro que agita".

Mais tranquilo, o novo presidente da Petrobras convocou uma coletiva de imprensa para anunciar suas medidas inciais. "É preciso muita cacetração para dirigir as reuniões de cãoselho. Para isso, chamei meu colega Dedé", explicou, enquanto jogava um balde de água fria nos jornalistas. No final, perguntou: "Dilma, no céu tem pão?".

Depois do anúncio, as ações da Petrobras subiram 55%.

Publicado no The i-Piauí Herald.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Descobri que falo 'brasileiro'. Por Juliana Doretto

Dizem as boas línguas que brasileiros e portugueses falamos a mesma língua. Ah, caro leitor, essa frase está tão longe da realidade quanto o Brasil está distante de Portugal.

Sim, conversamos e nos entendemos; escrevemos e nos entendemos – uns 90%, é verdade, mas há compreensão. Só que não se trata da mesma linguagem. Quer ver? Aqui, em Portugal, eles dizem que falamos “brasileiro”. No Brasil, dizemos que falamos português e que os lusos manejam o “português de Portugal”. Entre essas duas línguas há um pote de gostosuras -- mal-entendidos, usos curiosos, duplos significados --, tão deliciosas quanto a moqueca nossa e o bacalhau deles.

Outro dia, compro uma revista, abro, e está lá, em letras garrafais: “Roupas para quem tem rabo pequeno”. Na página seguinte, vêm os modelitos para quem tem “rabo grande”. E, na TV, passa toda hora a propaganda da fralda que deixa o “rabinho do bebê” sequinho... Uma amiga minha, outro dia, estava com o celular no silencioso, no bolso, quando diz: “Ai, estou com o rabo a tremer!”. Aí, no Carnaval, ligo na RTP, o canal público daqui, e vem a reportagem: “Em Cabanas de Viriato, reina a dança dos cus”. Com uma senhora de 70 anos “a falar”: “Já, já dancei... já bati bem com o cu”. É cada susto que eu levo...

O português de lá é frequentemente uma surpresa. 'Derrocada' parece bem mais dramático do que deslizamento ou desabamento, não?  (Foto: Juliana Doretto)

Essa minha amiga, aliás, é mestre em me fazer ter sobressaltos. Já me fez quase ligar para o serviço de emergência quando me contou que sua “botija” havia estourado durante a noite, e a cama estava molhada. Como saberia eu que ela falava de uma bolsa de água quente que lhe aquecia os pés no frio lisboeta? Também me contou que teve de chamar ajuda para enfrentar uma “osga”. Imaginando algo feroz e assustador, apoiei seu ato de pouca bravura, até saber que o bicho em questão era uma inofensiva lagartixa.

Descobri ainda que as pessoas aqui metem o carro na vaga, metem o livro na mala, metem em todo o lugar, e fica tudo bem. Sei agora que gosto de “mocho” (coruja); que tenho um “chapéu de chuva” (guarda-chuva); que na serra da Estrela há “nevão” (nevasca); que travesseiro é “almofada”, e almofada é almofada mesmo; que “putos” e “pitas” são algo como “miúdos” ou “miúdas”, ou garotos e garotas. Inclusivamente – muito usado por aqui –, pode-se chamar uma menina de “rapariga” sem que ela se ofenda com o termo de uso antigo.

Aprendi que não apenas existe mas é extremamente popular o termo “mais pequeno”; que “engraçado” é interessante, e quem é engraçado na verdade “tem piada”; que a plataforma do metrô é o “cais do metro”, que fresco é “gelado”; que “gelado” é sorvete e que ninguém chupa gelado por aqui, porque é feio. Come-se. Come-se um gelado de “marabunta”, por exemplo. Não pense bobagem: é de flocos.

Mas nada é tão difícil para mim quanto "o tratamento Pelé”, como o chamo. Assim como o Edson trata a si mesmo pela terceira pessoa, é extremamente comum aqui que as pessoas me chamem de “Juliana” quando estão falando diretamente comigo. É um tratamento intermediário, nem formal nem informal. “E a Juliana vai comer o quê?”, perguntaram-me. A primeira vez, é claro, olhei para trás, procurando uma Juliana. Mas havia somente eu na sala. Isso vem também por escrito. Em um e-mail enviado para mim, é comum ler a frase: “Como a Juliana me disse na última mensagem...”

Tem toda a parte dos xingamentos, palavrões e outros que tais, mas isso, por força da minha polidez, eu guardo para os meus amigos “tugas”, numa mesa de uma “tasca” qualquer. Ou um restaurante pequeno e barato. Enquanto “tomamos um copo” e para quem eu distribuo um “grande beijinho”, porque é assim que faz com aqueles por quem se tem estima. Mas, para dizer que não avisei, sugiro apenas que não comprem um broche, mas sim uma “pregadeira”. Soará muito melhor, vá por mim...

Juliana Doretto é jornalista e faz doutorado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Publicado no site da revista Época.

terça-feira, 15 de abril de 2014

"De carona é mais gostoso", diz André Vargas

Após a declaração, André Vargas foi contratado pelo Flamengo

ILHAS SEYCHELLES - Em discurso de despedida na Câmara, o deputado André Vargas ressaltou que não estava em impedimento quando pegou emprestado o jatinho do doleiro Alberto Yousseff. Após repetir o mantra de que provará sua inocência de cabeça erguida, Vargas provocou a oposição: "De carona é mais gostoso", soltou, de punho cerrado e braço erguido.

A frase se espalhou no governo e virou um bordão. Em depoimento sobre a compra de uma refinaria em Pasadena, no Texas, a presidenta da Petrobras, Graça Forster, salientou: "Superfaturado é mais gostoso".

Procurado em seu gabinete, Guido Mantega foi conclamado a se pronunciar sobre os ajustes no orçamento de 2013: "Maquiado é mais gostoso", declarou.

No final da tarde, a diretoria do Vasco da Gama entrou com o recurso no DIP para anular este post.

Publicado no The i-Piauí Herald.

Eles querem ser patrões, por Fernando Barros

Hoje, 12 milhões de brasileiros habitam as periferias e favelas de nossas maiores cidades. Somados, equivalem à população do que poderia ser a quinta maior unidade da federação e ultrapassam a renda comum do Paraguai e da Bolívia.

Esse Brasil das favelas e da periferia responde por R$ 63,2 bilhões no mercado de consumo. Essa turma está plugada no planeta. Todos empunham celulares de última geração e quase a totalidade deles se conecta com a internet a partir de suas casas, de seus desktops e notebooks. Conectividade, para eles, é algo orgânico.

Dedico-me a observar e estudar essa nação da nova classe media há alguns meses. É fabuloso observar as atitudes, os desejos e as aspirações que os move. São ágeis para decifrar o mundo que os cerca. Um traço relevante da tribo: cerca de 70% deles almejam ter o próprio negócio, querem ser patrões, conquistar a independência de “não trabalhar mais pros outros”, como revela o relatório “Oportunidades e desafios no novo Brasil”, pesquisa feita pelo DataPopular, de Renato Meirelles.


Quem se libertou da pobreza não quer apenas comprar. Quer também vender. Não quer seguir tendo chefes. Quer ganhar mais, ter renda própria. São “autonomistas” e isso se reflete em todo seu conjunto atitudinal. Inclui, claro, preferências eleitorais: Não sabem direito em quem vão votar, mas governam seus votos.

Entendem que chegaram até aqui principalmente graças a seus esforços. Os governos fizeram “resgates” e essa justiça social deveria ter acontecido há muito tempo. Não incluem a gratidão a quem quer que seja. Querem mais e, como disse Raul Seixas, acham que tem ainda muito a ser conquistado e não vão ficar parados. Andam sem fé nos poderes constituídos. Não têm exatamente um líder, uma referência.

Na periferia, os jovens entre 18 e 35 anos têm opiniões mais livres e as manifestam. Lidam fácil com a tecnologia, por isso lideram os lares — mesmo que sigam morando com os pais. Quase 40% desse novo Brasil tem uma mulher como chefe de família. Emancipadas, livres de preconceito, têm voz e vez.

Somadas, a classe média tradicional e essa nova classe média emergente são 54% da população. Tudo que acontecerá no Brasil nos próximos anos passará por aí. Bem-aventurados os que conseguirem dialogar com eles.

Trabalhar com marketing, seja eleitoral ou de consumo, significa, a partir de agora, debruçar-se sobre esse novo país emergido da miséria e da pobreza. Eles se sentem empoderados, sabem seus direitos e onde querem chegar. Vivem uma fase de baixa tolerância e não hesitam em manifestar protestos.

Informam-se por um mix de novas e antigas mídias. Dizer que só a web os toca é como passar a receita pela metade. São conectados e conectivos, mas ainda param em frente às TVs abertas, ouvem rádio e leem jornais. A internet é o novo meio, mas a mensagem tradicional ainda os toca.

Eles sabem formular seus pensamentos, estruturar suas atitudes de forma clara e pragmática. Pelos inúmeros relatórios qualitativos que tenho lido, suas críticas às políticas e aos políticos são consistentes. Não gostam, ou gostam, e dizem o porquê.

É hora de esculpir um modelo ideal de país que atenda às demandas dessa turma. Querem novas ideias, mais do que crédito fácil para comprar automóveis, motos, TVs de LED, smartphones e outras bugigangas.

Isso eles já têm.


Fernando Barros é publicitário e presidente da agência Propeg. Publicado no Blog do Noblat.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Robalo é o novo mascote da Copa do Mundo

A confecção do novo mascote custou R$ 56 milhões

SUÍÇA - Preocupado com a queda de popularidade da Copa do Mundo, o ministro Aldo Rebelo contratou o Ipea para realizar uma série de sondagens que vão descortinar as razões do descontentamento nacional. "Contemplamos sedes com larga tradição futebolística, como Manaus e Cuiabá, e atualizamos nossos estádios com a ajuda de fornecedores de primeira qualidade indicados pela FIFA. Criamos novos ícones culturais, como o Fuleco, a Caxirola e a Cafuza. Nem assim o nosso bom povo ficou satisfeito", lamentou Rebelo.

De acordo com as os primeiros resultados da consulta popular, 88% dos brasileiros acham que o robalo é o animal mais adequado para representar a relação entre a Copa do Mundo e o país. Na internet, uma campanha ufanista emergiu das redes sociais e foi criada a hashtag #vamosrobalo. Contratada em regime de urgência, sem licitação, a pesquisa custará 35 bilhões aos cofres públicos e terá seu resultado final divulgado em 2019.

Rebelo, no entanto, fez questão de se antecipar e prometeu atender aos anseios populares. "Infelizmente, não haverá tempo hábil para trocar o Fuleco antes da Copa. Mas, em paralelo, adotaremos o robalo como mascote oficial da III Copa Cristã sub-17 de Biritiba Mirim, que começa em dezembro", comemorou.

A escolha do novo mascote ganhou adeptos entre os jogadores e dirigentes. O goleiro Felipe, do Flamengo, apoiou a ideia. "Robalo é mais gostoso", afirmou.

domingo, 13 de abril de 2014

Quantos deuses únicos existem?, por Perce Polegato

As três religiões tradicionais do Ocidente (não as mais antigas, pois o hinduísmo é mais antigo que elas e ainda hoje tem 1,1 bilhão de adeptos!) são fundamentadas no monoteísmo, como todos estão fartos e entediados de saber.

Acontece que o deus único do judaísmo não é o pai de Jesus. E o deus único do cristianismo não foi o que orientou Maomé a disseminar os ensinamentos do Alcorão por toda a Terra. E o deus único dos islâmicos não tem nada a ver com a pregação do Evangelho.

Eu, que não sou judeu, nem cristão, nem muçulmano, se me interessasse em me converter, em qual deus único apostaria? E se eu errasse em minha decisão? Seria castigado ou, no mínimo, desvalorizado pelo verdadeiro deus, aquele que, por ignorância ou indecisão minha, não escolhi?

Que enrascada, que dilema, que medo de acabar no inferno do deus do outro, que questões profundas, difíceis, filosóficas, teológicas – e eu aqui, arrancando os cabelos, com medo de ofender um deus ou outro e...

Mas, para sorte de todos nós, os deuses não existem.

Lembro de quando eu era menino, o professor de catequese dizendo que Deus vivia em nossos corações – o deus de nossa religião, é claro, que estrategicamente chamaram de “Deus” mesmo). Mesmo assim, eu dava um jeito secreto de me aliviar um pouco. Afinal, podia ser Alá, dos islâmicos, ou Krishna, tanto faz, não importaria o deus em questão (na época, eu nem sabia esses nomes, mas sabia que havia outros deuses sim, via coisas sobre a Índia na TV). No fundo eu gostaria mais que fosse uma deusa, daquelas que eu via em estátuas gregas nos livros, mas o professor falava sempre no masculino, e quem era eu para contradizer uma coisa sagrada dessas, não e mesmo? Nosso deus era velho e macho.

Os babilônios, por exemplo, tinham seu deus único, Marduk. Os assírios, Baal. Com o comércio e a interação desses povos, um devia olhar para o outro e dizer: “Ei, espere aí! O meu é que é o deus único, não o seu.”

Eu queria entrar numa máquina do tempo, aportar na Mesopotâmia e dizer a eles: “Esqueçam isso, amigos, e façam as pazes. Venho do futuro e trago boas novas: os deuses não existem.”


Perce Polegato é membro da ATEA, como eu. Texto publicado no grupo da associação, no Facebook.

Alckmin promete economizar no xampu


Alckmin quer uma CPI para apurar a relação entre Haddad e Kamura

CANTAREIRA - Assustado com a possibilidade da falta d´água desembocar em um racionamento de votos, o governador Geraldo Alckmin pediu compreensão ao povo paulistano. "Precisamos evitar o desperdício. Prometo economizar no xampu até essa crise passar. Falei com o Serra e ele também fará parte dessa corrente de solidariedade", discursou, caminhando sobre as águas do Tietê.

Irascível e enérgico, Alckmin exigiu a criação imediata de uma CPI para apurar os gastos de água do topete de Dilma. "Imaginem a quantidade de água que não é desperdiçada diariamente para desfazer aquela argamassa de laquê", bradou, com o dedo em riste.

Inconformado com a inépcia do governo paulista, o doleiro Alberto Yousseff fechou todas as suas casas de câmbio em São Paulo. "Não consigo mais lavar dinheiro", reclamou.

Publicado no The i-Piauí Herald.

sábado, 12 de abril de 2014

Financiamento e campanhas eleitorais

Na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) retomou o julgamento sobre o financiamento das campanhas eleitorais, espinha dorsal das discussões sobre reforma política que se arrastam há anos no Congresso. Não há consenso entre os parlamentares sobre a forma de custear as campanhas: financiamento público, privado ou misto.

O assunto já foi decidido pela Corte, pois seis ministros – o que significa a maioria da composição do Tribunal – votaram a favor da proibição de doações de empresas a candidatos. O julgamento foi interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

A decisão também estabelece que o Congresso terá 24 meses para aprovar uma lei que crie normas uniformes para doações de pessoas físicas e para recursos dos próprios candidatos. Se em 18 meses a nova lei não for aprovada, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) poderá elaborar uma norma temporária.

A ação do STF motivou o Congresso a retomar o debate. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou, na semana passada, um projeto que pede o fim das doações por empresas (PLS 60/2012). Como não necessita passar pelo plenário, a proposta pode seguir direto para a análise da Câmara dos Deputados.

Na Câmara, o presidente da Casa, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), anunciou a votação em maio da PEC 352/2013, que estabelece, entre outros pontos, que caberá aos partidos políticos decidir por campanhas financiadas exclusivamente com recursos públicos, exclusivamente com recursos privados (de pessoas físicas e jurídicas) ou por uma combinação das duas fontes.

Caso o julgamento seja concluído antes das eleições, o Tribunal deverá apontar se as novas regras deverão ser aplicadas ou não já no pleito de outubro. No entanto, o Congresso não deve esperar a manifestação da Corte e vai correr contra o tempo para definir a questão pela via legislativa.

De certa forma, é lamentável que o STF tenha que julgar uma questão correlata para fazer o Congresso Nacional se mexer e debater o tema. Não é a primeira vez que isso ocorre.

Ao anunciar que vai mudar as regras, o Congresso joga de forma defensiva para proteger o sistema e seus controladores. A Justiça, provocada pela sociedade, age para suprir o vácuo de aperfeiçoamentos legislativos de nosso sistema.

Ao largo das considerações estratégicas, existem aspectos práticos e mundanos. Entre eles, o curioso fato de que muitos financiadores tradicionais de campanhas políticas torcem discretamente para que o STF proíba as doações de pessoas jurídicas de forma ampla e imediata. Assim, se livrarão do peso de ter que contribuir para um sistema político alquebrado.

Infelizmente, a história caminha para uma solução que não é a mais adequada: limitar o financiamento de campanhas aos fundos públicos. A medida pode distanciar, ainda mais, os políticos da sociedade.

Como afirmei em outras ocasiões, a democracia impõe que o financiamento seja feito exclusivamente por meio de doações de indivíduos e com teto de gastos. Como tal proposta ainda é um sonho, continuaremos com um sistema cujas fontes de financiamento não são as mais adequadas.

Publicado no Blog do Noblat.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Banco - Porta dos Fundos

Bancos são cruéis. Eles aparecem na sua vida, prometem mundos e fundos, te f@#$% gostoso, nunca mais te ligam e quando você vai reclamar, aparecem com uma historinha nova e te f@#$% gostoso de novo.

Senhoras e senhores, com vocês, mais um vídeo original, inédito e exclusivo da nossa Porta dos Fundos: “Banco”…

Câmara ardente, por Nelson Motta

A Câmara dos Deputados vai abrir concorrência para escolher uma agência de propaganda para identificar as causas do desgaste de sua imagem e melhorá-la com uma campanha publicitária de 10 milhões de reais.

No país da piada pronta, seria só mais uma, se não fôssemos nós a pagar a conta desse deboche com o contribuinte e afronta à inteligência alheia. Nem 100 milhões de reais e Nizan Guanaes, Washington Olivetto e Duda Mendonça juntos fariam o milagre: a própria ideia da campanha suja ainda mais a imagem da Casa.

Logo em seguida ao anúncio ultrajante, como uma irônica resposta da realidade, foram ao ar o voo de 100 mil reais que um doleiro preso pela PF pagou para o então vice-presidente da Câmara, André Vargas, e as relações perigosas entre os dois.


Apavorados com a contaminação, o Planalto, Lula e o PT já jogaram Vargas ao mar, outros partidos temem novos nomes, a manada entrou em pânico diante do perigo iminente. As eleições vêm aí e agora as cassações são por voto aberto. Quem condenará quem?

As ações e omissões de cada um numa eventual CPI-bomba, com televisão ao vivo, vão ser mais convincentes, para o bem e para o mal, do que qualquer campanha publicitária. O público acaba percebendo o que eles tentam esconder e as manobras para diluir as culpas, que, no fim, atingem toda a instituição. Mas terminar em pizza no meio da campanha vai ter um preço salgado para todos.

No que se refere, como diz a Dilma, à Câmara, a única certeza é a de Ulysses Guimarães: a próxima será pior. A matemática é triste: entre os novos e honestos que entrarão, vários vão se corromper pelo poder, pelos privilégios e pela vaidade, mas quem acredita que algum dos velhos picaretas já instalados vai se regenerar? Não por acaso, André Vargas estava se preparando para tomar a presidência da Câmara, o ex-presidente João Paulo Cunha está preso, e o próximo pode ser o deputado Eduardo Cunha.

Nossos 10 milhões de reais só vão melhorar a vida da agência de publicidade e piorar ainda mais a imagem da Câmara. Mas eles não ligam, repetem para nós o que o doleiro Youssef digitou a André Vargas: kkkkk.


Nelson Motta é jornalista. Publicado no Blog do Noblat.

Jatinho que deu carona a André Vargas desaparece na Malásia

Vargas negou que tenha pego carona no escândalo do mensalão para se promover

BURACO NEGRO - Acaba de sumir na Malásia o avião cedido pelo doleiro Alberto Yousseff para que o deputado André Vargas pudesse viajar com a família sem turbulências. "Com isso, não há provas da minha ligação com o Sr. Yousseff", defendeu Vargas. Em seguida, comemorou erguendo os dois punhos fechados.

Vargas negou que tenha aderido ao Programa de Milhagem criado pelo doleiro. "O combustível que usei para viajar de jatinho com minha família eu acumulei no plano Fidelidade Petrobras", explicou.

No final da tarde, a família Yousseff negou ser uma dissidência fonética dos Rousseff.

Publicado no The i-Piauí Herald.

O rio da minha aldeia, por Sandro Vaia

O problema não é fazer ou deixar de fazer. O problema é noticiar.

Embora ainda não tenham sido escritos todos os compêndios sobre a decadência da mídia impressa e a emergência, em seu lugar, das redes sociais, como se a mudança de ambiente e de plataforma de distribuição da informação mudasse a natureza do jornalismo, os políticos, por via das dúvidas, preferem precaver-se a ter que correr atrás do prejuízo.

Foi o que aconteceu com o senador Delcídio Amaral (PT), pantaneiro boa pinta que fez de tudo para sair bem na foto da CPMI dos Correios, aquela que escavou as origens do julgamento do mensalão, que gosta de tuitar loas ao seu São Paulo F.C., e que sonha em ser governador do Mato Grosso do Sul.

Ele entrou com ação inibitória contra o Jornal Correio do Estado de Campo Grande para evitar a publicação de qualquer notícia que vincule seu nome ao do ex-diretor da área internacional da Petrobrás, Nestor Cerveró, demitido depois de ter sido responsabilizado pelas negociações da compra da refinaria de Pasadena.

A notícia que o Correio veiculou foi a de que Cerveró tinha sido indicado ao cargo pelo senador Delcídio — o que não foi invenção e nem vincula o nome do senador a qualquer negociação que seu apadrinhado tenha feito.


O jornal de Campo Grande, inclusive, reproduziu notícia recebida da agência Folhapress, da qual é assinante, e que também foi publicada em jornais de circulação nacional, como O Globo, Folha de S.Paulo e Correio Braziliense.

O juiz Wagner Mansur Saad, da 12ª Vara Cível, ameaça multar o jornal em 20 mil reais a cada vez que publicar a informação relacionando os dois nomes, e quer obrigar o veículo a “revelar a fonte”, cuja inviolabilidade é garantida pelo art 5, XIV, da Constituição Federal.

A informação é pública e nacional, mas como o senador quer ser candidato no Mato Grosso do Sul, ele, como Alberto Caieiro, o heterônimo de Fernando Pessoa, tem que cuidar do rio de sua aldeia; ele não é o Tejo, mas é lá que correm os votos de que ele vai precisar.

As investidas contra a imprensa, como já comentamos exaustivamente, estão inseridas no DNA petista, e ainda que haja quem tente racionalizá-las apelando para a necessidade premente de uma suposta “regulação”, o rio da aldeia vai sempre desaguar no mesmo desconforto com o conteúdo.

Não é por acaso que as pouquíssimas entrevistas coletivas dos luminares e guias supremos do partido são dadas a interlocutores devidamente domesticados, e por ato falho ou não, desembocam na mesma ladainha, como foi a declaração de Lula na entrevista desta semana a blogueiros fiéis.

— A gente não pode permitir que, por omissão nossa, as mentiras continuem prevalecendo.

Alguém aí para perguntar “que mentiras”? Ou o que significa “não permitir”?


Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade"(editora Barcarolla). E.mail: svaia@uol.com.br.

Publicado no Blog do Noblat.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Perseguição política: Como se defender, por Tuta Barbério

A maneira brasileira de se trabalhar a política concentra muitos poderes nas mãos do Poder Executivo, que por meio de seus administradores, podem cometer vários abusos. O abuso de poder, apesar de ser tolerado, é enquadrado no nosso Direito como Improbidade Administrativa, com graves consequências para os gestores que delas fazem uso, que vão desde perda dos direitos políticos, até boas indenizações, com consequente nulidade do ato. Você é mais livre do que pensa. Não estamos na China!

Quem é servidor público, professor, profissional da saúde, ligado por meio de concurso público à administração pública, muitas vezes se sente receoso em demonstrar suas opiniões, por medo de ser perseguido. A mais covarde das formas, se traduz na Remoção: Transferência da localidade de trabalho do funcionário, para outra de difícil acesso, ou que fique distante de sua residência. O que, no entanto, esses trabalhadores não sabem é que existem meios para impedir que isso aconteça, e inclusive punir o gestor que faz isso. Os mais famosos meios judiciais são a Ação Civil Pública e o Mandado de Segurança. Em ambos, o próprio Ministério Público, na figura do promotor local, pode impetrar a ação gratuitamente. Mas acredite, esse trabalho só será feito se denunciado, pois “O Direito não socorre a quem dorme”.

É incrível imaginar como muitos administradores do Brasil afora despendem esforços para prejudicar os que não estão de acordo com suas práticas, mesmo sabendo que isso pode ser uma prática suicida. Talvez por contar com a inércia daqueles que baixam suas cabeças e não lutam por seus direitos.

Há uma aparente ilusão de poderes absolutos dos administradores nos seus atos. Mas não é bem assim. Devemos ter em mente que:
◾Todos os atos da administração são passíveis de nulidade pelo judiciário;
◾Todos os atos da administração precisam ser motivados.

Isso significa que mesmo nos atos discricionários, isto é, naqueles que a administração tem maior liberdade para praticá-los ou não, precisa-se de uma motivação.

Motivação não é só dar uma desculpa para praticar determinada ação: Precisa ser algo indispensável, que o bem comum e o interesse coletivo estejam realmente necessitando. Não é uma mera vontade de quem governa.

Além disso, quem governa, governa para o povo, e não sobre o povo.

Todos atos da administração devem ser orientados pelos princípios:
◾Legalidade
◾Impessoalidade
◾Moralidade
◾Publicidade
◾Eficiência

Em nenhum lugar, seja da doutrina ou da lei, o Direito diz que os atos da administração são pautados pela simples vontade do gestor (até por que isso seria imoral e pessoal, ou seja, um atentado a dois dos princípios listados).

Não precisa ser advogado para entender isso. Se o servidor percebe que a administração não deu um motivo concreto para realizar o ato e que administração agiu com a intenção de prejudicá-lo, por meio de uma desculpa esfarrapada, ele DEVE DENUNCIAR. Está colaborando para um mundo mais limpo e mais justo.
A finalidade do ato administrativo não deve ter o caráter de punir, principalmente por questões eleitoreiras. O gestor que pratica esses atos, incorre em Improbidade Administrativa, por Desvio de Finalidade e Abuso de Poder e pode se dar mal.

Além de recorrer ao Mandado de Segurança ou Ação Civil Pública, o servidor pode entrar com um Pedido de Liminar, para que não seja atingido pelos efeitos do ato ilegal enquanto durar o desenrolar do processo.

Não se deve brincar com o Poder, ele foi consagrado pela nação, com o único objetivo de promover o bem coletivo e não as vaidades e intrigas pessoais. O verdadeiro Poder emana do povo e o povo quando quer, pode dar uma boa dor de cabeça. E de bolso também

Tuta Barbério é professora da rede municipal de ensino de Ribeirão Preto. Texto publicado no grupo Educação na Rede, do Facebook.

Versão estendida da CPI terá faixa comentada por Lula

O produtor executivo Luiz Inácio confidenciou que teme um fracasso de bilheteria

SUCUPIRA - Após ceder ao director´s cut e aprovar uma CPI estendida, o Congresso anunciou uma série de extras. "Fomos além dos anseios da população. Lançaremos uma CPI para colecionadores. Em capa dura, encartaremos um libreto com as postagens de Paulo Henrique Amorim desde 2003. Teremos também uma faixa comentada por Lula, nosso ex-presidente em exercício", comemorou Franklin Martins.

O governo lembrou que a abrangência da CPI é benéfica para o país. "Não vamos ficar apenas na Petrobras. Investigaremos a vida social de Aécio Neves, o cocuruto calvo de Eduardo Campos e escarafuncharemos mundos e fundos para descobrir porque essa novela das seis, tão bonitinha, não dá audiência", esclareceu André Vargas. "Aliás, onde está aquele avião que sumiu na Malásia? O mundo precisa saber e nós vamos colaborar!", concluiu, com o punho cerrado.

No fim da tarde, a oposição exigiu uma CPI mista para investigar a CPI estendida.

Leia também:


Publicado no The i-Piauí Herald.


Arrependimento, por Luis Fernando Veríssimo

Ironia climática: em meio a uma das maiores estiagens da nossa História, estreia no Brasil o filme “Noé”, sobre o Dilúvio.

Noé, filho de Lameque, é uma das figuras mais controvertidas da Bíblia. Na verdade, a Bíblia mal começa e já nos apresenta seus dois personagens mais intrigantes, Caim e Noé.

É evidente, pelo que se lê em Gênesis, que Deus tinha outros planos para Caim, não o de ser o primeiro vilão e o primeiro desterrado do mundo, mas um dos fundadores da aventura humana sobre a Terra.

Deus amaldiçoa Caim com uma marca que o identifica como assassino do seu irmão, mas também o protege dos vingadores de Abel (“Qualquer que matar a Caim”, avisa o Senhor, “sete vezes será castigado”) e permite que ele se case (até hoje nenhuma exegese da Bíblia conseguiu explicar de onde, de que criação paralela, saiu a mulher de Caim) e procrie, e construa uma cidade, a que dá o nome do seu primogênito Enoque, e inicie uma prole que incluirá Jabal, “pai dos que habitam em tendas e têm gado”, e Jubal, “pai de todos que tocam harpa e órgão”.

Nada mal para um fratricida: acabar como patriarca, construtor de cidades e precursor da pecuária e das artes. Abençoado por Deus, pode-se dizer, com a marca da maldade.


Se o Deus da Bíblia camuflou seu apoio a Caim, não há nada ambíguo na sua escolha de Noé e família para sobreviverem ao Diluvio, que viria para acabar com a vida de todos, salvo os poupados, sobre a face da Terra. “Porque me arrependo de os haver feito”, disse, textualmente, o Senhor. Dá-se pouca atenção a essa segunda criação que parte do arrependimento.

O Dilúvio é um grande gesto de autocrítica do Senhor. Transforma todo o relato bíblico, de Adão e Eva até então, na descrição de um fracasso, de uma primeira tentativa frustrada. Por que Noé, de cujas virtudes pouco se sabe, foi o escolhido para construir a arca e se salvar do Dilúvio, é uma questão que deve ter intrigado até a Noé. É difícil imaginar que Deus tenha apelado para o uni-duni-tê.

A explicação da Bíblia para o arrependimento de Deus começa com uma acusação genérica: “Aconteceu que, como os homens começaram a se multiplicar sobre a face da Terra, lhes nasceram filhas. E viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram.” Nasceu aí a corrupção que desagradou ao Senhor (As mulheres, sempre as mulheres).

É claro que Deus poderia ter simplesmente optado por criar mulheres menos formosas e tentadoras, para não desencaminhar os homens, em vez de apelar para a superprodução do Dilúvio — mas aí não teríamos uma boa história.

CORREÇÃO

Há dias escrevi aqui sobre o Bellini e a importância de um capitão de boa estampa para levantar taças e cometi uma injustiça. O capitão do Brasil na Copa de 70, no México, não era o Brito, como eu escrevi. Era o Carlos Alberto. Que não fez feio como levantador de taça.


Luis Fernando Veríssimo é escritor. Publicado no Blog do Noblat.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Isso pode?, por Ruth de Aquino

Nossos representantes começam a descobrir que não adianta tentar controlar ou censurar a imprensa ou a televisão – e criar uma máquina de informações governamentais, como sonha o PT de Lula e Dilma. Políticos, juízes e atletas hoje sabem que um passo mal dado, uma declaração desrespeitosa, uma “escala técnica” para comer bacalhau, um riso fora de lugar ou um gasto mal explicado vão todos para o ventilador virtual, com ajuda de uma apuração jornalística 24 horas por dia e fiscalização da população antenada. Reuni dez destaques recentes que me fizeram pensar: “Isso pode?”.

1. Dilma mentiu bobamente. Flagrada com sua equipe em 45 suítes milionárias em Lisboa, mandou dizer que era uma escala inesperada na volta de Davos, devido à meteorologia. Mas não. A agenda estava definida desde a semana anterior, e o restaurante foi visitado por gente da Dilma na véspera. “Paguei a minha conta”, afirmou a presidente. Os brasileiros não conseguem ter acesso à caixa-preta dos cartões corporativos. Tem problema o passeio? Não. Mas mentir não pode. O incidente apressou a saída da ministra Helena Chagas, da Comunicação Social. Dilma quer “melhorar relação com a mídia”. O culpado foi o mensageiro. Isso pode?

2. Eduardo Campos, pré-candidato à Presidência pelo PSB, usou a estrutura do governo de Pernambuco para divulgar, com touquinha e roupa de médico, o nascimento de seu quinto filho, em e-mail e redes sociais oficiais. Campos também anunciou que o bebê, Miguel, tem síndrome de Down. As fotos foram logo retiradas do site institucional do governo. Campos chamou de “equívoco”. Ninguém constatou a impropriedade antes do tempo?

3. O Ministério do Trabalho aumentou em 149% – mais do que duplicou – os registros de sindicatos no ano passado em relação a 2012. Foi um “mutirão”, segundo o ministro Manoel Dias (PDT). Um país que cria uma casta de sindicatos, com favores e benefícios, não vai no bom caminho. A empresária de transportes Ana Maria Aquino afirma ter entregado R$ 200 mil ao ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi. Ou essa empresária é louca varrida ou é preciso levar a investigação até o fim. Ela deu detalhes e disse ter levado o dinheiro pessoalmente ao gabinete de Lupi para acelerar o registro de um  sindicato em Pernambuco. Lupi negou e chamou a acusação de “surreal”.

4. O Brasil continua sendo um dos dez países com maior número absoluto de analfabetos no mundo. Em 2012, tínhamos 13,1 milhões de jovens e adultos analfabetos, 8,7% da população nessa faixa etária. Isso não pode mesmo.

5. O Brasil fiscaliza agrotóxico em apenas 13 alimentos. Estados Unidos e Europa analisam 300 tipos de alimentos por ano, incluindo os industrializados. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. A fiscalização é falha. Dos 50 defensivos mais usados em nossas lavouras, 22 são proibidos na União Europeia. Isso pode?

6. Todo dia, em média, oito ônibus são incendiados ou depredados nas grandes cidades do Brasil. É no ônibus que se despeja a ira contra qualquer coisa – de aumentos de passagens a balas perdidas, falta de passarelas, mortes de jovens, condições de presídios, descaso com saneamento. Vandalizar os ônibus não é protesto legítimo. Isso não pode.

7. Um caminhão com a caçamba levantada derrubou passarela na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, matou e feriu. O motorista falava ao celular, trafegava em horário proibido e acima da velocidade permitida – como tantos, sem controle até uma tragédia acontecer. Passarelas deveriam ser mais resistentes, diante da burrice e da irresponsabilidade humanas. Nada disso pode.

8. Mais da metade dos projetos da Olimpíada ainda não tem orçamento definido: só 24 dos 52 empreendimentos chegaram à fase da licitação, a dois anos dos Jogos. Isso pode?

9. Neymar recebeu 10 milhões de euros (R$ 32,7 milhões) do Barcelona mais de um mês antes da final do Mundial de clubes entre Santos e o time catalão, em 2011. Quem recebeu a grana foi a empresa do pai de Neymar. O Santos perdeu a final de 4 a 0. Neymar poderia ter entrado em campo? Por um ano e meio, Neymar jogou pelo Santos já comprometido com o Barcelona. A falta de transparência e as aparentes irregularidades no contrato derrubaram o presidente do Barça, Sandro Rosell. E, no Brasil – isso pode?

10. O deputado federal Romário foi anunciado como garoto-propaganda de uma marca de cerveja, Devassa, no Carnaval. Não se sabe se a escolha foi resultado de sua foto de mãos dadas com uma transexual operada. A morena não importa. Deputado federal pode fazer propaganda de cerveja? No Brasil, pode...

Aqui pode tudo!

Publicado no site da revista Época.